Consumismo como forma de pertencimento: quanto os fãs investem nouniverso do K-pop
- Giovana Velasco
- 23 de jun.
- 3 min de leitura

‘Korean Pop’, ou também conhecido como ‘K-pop’. Um fenômeno que tem dominado os fones e telas dos fãs nos últimos anos; e as redes sociais são grandes motores para o aumento desses números.
E além de cativar com seus clipes, músicas carismáticas e personalidades marcantes, a indústria coreana também aposta em outra vertente para atrair fãs: o consumismo.
Álbuns, roupas e produtos oficiais são lançamentos frequentes das empresas, que apostam cada vez mais no discurso de compra e proximidade. Se você adquirir mais produtos do seu grupo favorito, mais próximo você é dele, criando-se uma relação parassocial entre fã e ídolo.
Seguindo o modelo capitalista em que a sociedade vive hoje em dia, os jovens estão dispostos a gastar, e o mercado a cobrar caro. Mas como será que o público reage a essas estratégias na prática?
Fã de K-pop há 8 anos, Thalia Eiler conta um pouco sobre sua experiência com esse universo.
Você costuma comprar produtos de K-pop? Quais?
Sim, eu opto mais pelos produtos não oficiais (conhecidos como fanmade) por serem mais acessíveis. Chaveiros, pelúcias, photocards, bottons, camisetas…
Você consegue estimar quanto já gastou nesse universo?
Não, porque ao longo de oito anos foram muitos gastos pequenos e pontuais que acabaram se acumulando. Como não é algo que eu parei pra contar, fica difícil chegar a um valor específico, mas certamente foi um valor considerável.
O que te faz querer comprar um álbum ou produto novo?
Estética do produto e o quão aquilo chamou minha atenção, se eu acreditar que vale a pena gastar o dinheiro naquilo.
Você acha que existe pressão para acompanhar todos os lançamentos?
Acredito que a pressão vem do quanto você gosta daquilo e está disposto a pagar. Mas muitas pessoas acreditam que quanto mais você tiver daquele artista que você gosta mais fã você é, então muitas pessoas podem se sentir meio pressionadas em relação a isso.
Esse sentimento não é algo apenas dos fãs. O economista Uallace Moreira fala sobre a forma como a Coreia do Sul usa soft power (capacidade de um país influenciar o comportamento e as preferências de outras nações por meio da atração e persuasão cultural, ideológica e institucional) no exterior.
“A Coreia do Sul entendeu a cultura como estratégia de desenvolvimento e de inserção global. O K-pop, os dramas, o cinema e outros produtos culturais ajudam a construir uma imagem positiva do país, despertam interesse pela língua, pela comida, pelos produtos e fortalecem a presença econômica sul-coreana no exterior”. Ele declara.
Além disso, a sensação de exclusividade, pertencimento e as novas trends das redes sociais são as principais motivações para as compras no meio juvenil.
“As redes sociais funcionam como uma grande vitrine permanente. O fã está constantemente exposto a lançamentos, trends, desafios, conteúdos de idols e consumo de outros fãs. Isso cria circulação rápida de desejo, pertencimento e engajamento. Além disso, os algoritmos ajudam a manter esse público conectado o tempo inteiro com conteúdos semelhantes, ampliando o interesse e incentivando compras.”
A especialista em marketing digital Lyandra Alves também fala sobre como a indústria usa suas estratégias para atrair mais consumidores.
“O kpop proporciona experiências além da música pra quem consome. Por exemplo, quando um artista ocidental lança um clipe, ele, às vezes, lança única e exclusivamente o clipe. Quando a gente fala da indústria do K-pop, a gente vê todo um processo de construção do clipe antes. Quando a gente tem um álbum novo, não é só o álbum que é lançado com eles dando entrevistas. Você tem todo um conceito por trás, às vezes são criados realitys com os idols e entre muitas outras coisas.”
Ainda segundo ela, o mercado do K-pop tem uma força diferenciada. Produtos que antes eram vistos como sem utilidade, agora são vendidos em maiores quantidades, graças às propagandas e divulgações das empresas.
“Tipo, CD estava obsoleto no ocidente. De repente, a gente viu uma explosão da venda de novo de CDs no mercado do K-pop.”
Também foi levantada a pergunta sobre como a Coreia conseguiu transformar os fãs de um produto em consumidores tão engajados. Em resposta, ela diz:
“Eu acho que é todo um processo muito bem montado para transformar esses países do Leste Asiático em grandes potências. No capitalismo a gente tem muito disso. ‘Será que eu consumo porque eu gosto, ou porque eu fui condicionada a gostar daquilo?’ ”
Em uma indústria que incentiva constantemente o consumo, é perceptível como o consumismo se torna parte da rotina dos fãs. Mais do que acompanhar conteúdos e artistas, muitos sentem a necessidade de demonstrar pertencimento por meio da compra de produtos, ingressos e itens exclusivos, numa lógica associada ao ideal de “fã de verdade”. Esse comportamento é impulsionado pela própria estrutura da indústria cultural sul-coreana, inserida em um sistema fortemente capitalista, que transforma exclusividade, proximidade simbólica e engajamento em estímulos permanentes ao consumo.


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