Mulheres no jornalismo: histórias de profissionais que inspiram novas gerações da comunicação
- Giovana Velasco
- 23 de jun.
- 4 min de leitura

A presença feminina no jornalismo passou por transformações significativas ao longo das últimas décadas. Embora as mulheres tenham ampliado sua participação em redações, assessorias de comunicação, universidades e cargos de liderança, desafios relacionados à valorização profissional, igualdade de oportunidades e permanência no mercado ainda fazem parte da realidade da categoria.
Ao mesmo tempo, a trajetória de profissionais que conquistaram espaço na área serve como referência para estudantes e jovens comunicadoras que desejam seguir carreira na comunicação.
No jornalismo esportivo, por exemplo, a participação feminina cresceu de forma expressiva nos últimos anos. Ainda assim, muitas profissionais relatam obstáculos relacionados ao preconceito e à ocupação de espaços historicamente dominados por homens.
Repórter da TNT Sports, Tati Mantovani relembra que a carreira no esporte parecia distante quando iniciou sua trajetória.
“Eu sou gaúcha. Lá no Sul, pelo menos na minha época, se você fosse torcedora fanática do teu time seria impossível trabalhar com isso, por isso, nunca trabalhei com esportes. (…) Foi algo que eu nunca nem me atrevi a sonhar, até porque eu não cresci vendo mulheres fazendo o que eu faço hoje.”
Sobre o cenário atual, ela avalia que houve avanços, mas acredita que ainda existem barreiras a serem superadas.
“Eu acredito que hoje somos mais e que o mercado já entendeu que nós chegamos para ocupar esse espaço que nos foi vetado por muito tempo. Sinto que ainda há muitas barreiras para derrubarmos para dizer que temos as mesmas oportunidades, porém acredito que cada dia somos mais e seremos. (…) Ainda há muito preconceito, mas hoje somos mais para nos defendermos. (…) O preconceito não vai desaparecer tão cedo, porém acredito que hoje escutamos menos estas pessoas que já não deveriam ter voz.”
Ao falar para quem deseja ingressar na profissão, a jornalista destaca a importância da persistência.
“Tentem. Vai ser difícil, vocês vão escutar muitas vezes que não servem para isso, vão se sentir excluídas, mas se é o sonho de vocês: tentem. Não digo que todas vão conseguir, mas se é o que vocês querem, tentem. Eu quase não tentei e hoje penso que teria me arrependido muito.”
A busca por espaço e reconhecimento também faz parte da realidade de profissionais que atuam em diferentes áreas da comunicação. Em Campos dos Goytacazes, a jornalista e professora Letícia Nunes, atual coordenadora do setor de Comunicação e Marketing da Unimed Campos e docente do Centro Universitário Fluminense, destaca os desafios enfrentados pela categoria na cidade.
“É um desafio todos os dias, porque o jornalismo em Campos precisa de uma força para se manter vivo. A gente é uma cidade que tem uma história muito bonita em relação ao jornalismo (…), mas a classe é um pouco dispersa, desunida e atingida por alguns movimentos de pessoas que não têm diploma.”
Ao comentar sua experiência em cargos de liderança, Letícia ressalta a importância de incentivar outras mulheres dentro dos ambientes de trabalho.
“Como mulher num cargo de liderança hoje, e que já fui também em veículos de comunicação lidando com times só de homens e também times só de mulheres, eu tentava muito empoderá-las. Falava muito com as meninas, sempre mostrando a força da mulher, mostrando que a gente é mais do que qualquer coisa que se pense, que a gente tem técnica, conhecimento, força de vontade, o olhar do acabamento quando a gente fala de notícia e de apresentação.”
Questionada sobre o futuro da profissão, ela defende a relevância do jornalismo na sociedade.
“Eu acho que, mesmo se eu não fosse professora e pesquisadora, e mesmo se eu não trabalhasse na área, eu responderia que sim. (…) Se não tivesse jornalismo hoje, imagina como seria o mundo? As pessoas já falam tanta bobagem sem serem jornalistas nas redes sociais… imagina se não tivéssemos o jornalismo hoje para apurar corretamente, esclarecer o que tem que ser esclarecido, dar voz para quem não tem voz? Tanta coisa já aconteceu ao longo da história por causa do jornalismo! Então, sem dúvida nenhuma, apesar de todos os motivos do universo, ainda vale muito a pena ser jornalista hoje.”
Outra profissional que construiu sua trajetória na região é Fúlvia D’Alessandri, assessora de comunicação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Para ela, a valorização da profissão ainda é um dos principais desafios para quem atua em veículos de comunicação.
“Para quem trabalha em veículos de comunicação, acho que o maior desafio é a questão financeira, pois os salários costumam ser baixos. O lado bom é sentir que se está ajudando a construir a história do município (…) No meu caso, que atuo como assessora de comunicação na UENF, é uma grande realização. Eu me sinto abençoada por trabalhar numa instituição de ensino, pesquisa e extensão. Acredito muito na educação e na produção de conhecimento como pontes para um mundo melhor e mais justo.”
Ao refletir sobre o papel do jornalismo, Fúlvia destaca a necessidade de adaptação dos veículos às novas demandas da sociedade.
“O jornalismo é uma profissão maravilhosa, que pode ser muito recompensadora. Muitas matérias veiculadas podem ajudar as pessoas, trazer esperança, informações importantes para tomadas de decisão, aconselhamentos, etc. Por outro lado, acredito que os grandes jornais precisam reformular-se, pois hoje há uma tendência a se abrir muito mais espaço para determinadas notícias, em detrimento de outras que poderiam ajudar muito mais as pessoas. É preciso que os novos jornalistas tenham essa sensibilidade e produzam essa mudança.”
As trajetórias de profissionais como Tati Mantovani, Letícia Nunes e Fúlvia D’Alessandri refletem diferentes caminhos possíveis dentro da comunicação. Em áreas distintas, elas compartilham experiências que evidenciam avanços conquistados pelas mulheres no jornalismo e os desafios que ainda permanecem presentes na profissão.
Mais do que exemplos individuais, suas histórias demonstram como a presença feminina tem contribuído para a construção de uma comunicação cada vez mais diversa, plural e representativa.


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