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Economia dos afetos- Millenials e gen Z

  • goitacainforma
  • 23 de jun.
  • 3 min de leitura

Nunca tivemos tanta facilidade de acessar pessoas e nunca estivemos tão sozinhos. No Brasil, em 2022 cerca de 60% dos brasileiros estavam em um relacionamento, enquanto em 2025 este número caiu para apenas 42%. Porém, em pesquisa, 1 em cada 5 jovens disse estar em “celibato involuntário”, por cansaço, medo ou trauma de relações anteriores. Além disso, 80% da geração z relatou solidão no último ano. Entre mulheres millenials surge o termo “boy sober” pra se referir à decisão de levar um tempo sem se envolver com homens. É no mínimo curioso que em um tempo em que se tem tantos aplicativos de relacionamento e redes sociais, as pessoas estejam tão solitárias.

A chave para o entendimento desse fenômeno pode estar na forma com que as pessoas vêm se relacionando. O sociólogo Zigmund Baumam, famoso por cunhar o termo “modernidade líquida”, fala sobre a transformação das pessoas em mercadorias. A psicanalista Valeska Zanello, fazendo um recorte de gênero, escreveu a obra “A prateleira do amor”. Evidencia-se assim que ambos os autores trazem significantes próprios do capitalismo para abordar as relações afetivas na contemporaneidade: a mercadoria e a prateleira.  Isto escancara uma realidade: as pessoas estão mimetizando a lógica de mercado própria do capitalismo no campo das relações afetivas. 


Os aplicativos de paquera e as redes sociais criaram fácil acesso a um vasto número de pessoas à distância de um clique. O que pode parecer bom à primeira vista. Quanto mais possibilidades de escolha, melhor se pode escolher. Ironicamente, o que tem acontecido é a “não escolha”. Quando duas pessoas se conectam, estas duas pessoas estão simultaneamente conectadas a mais duas ou três ou cinco pessoas... E estão na expectativa das pessoas que podem vir a se conectar. Escolher se relacionar com apenas uma seria abrir mão de todos estes “múltiplos investimentos”. Além disso, o investimento afetivo, não tem retorno garantido. Numa sociedade focada e performance, produtividade e resultado no curto prazo, investir em apenas um alguém pode ser considerado arriscado e perda de tempo.


Valeska Zanello aborda as relações heterossexuais por uma ótica da diferenciação de gênero  e diz que em nossa sociedade patriarcal são os homens que detém o maior poder de escolha e as  mulheres estão como se dispostas em uma prateleira esperando ser escolhidas. Aquelas que mais se aproximam do padrão estético vigente, branco e magro, estão mais à frente na prateleira e são mais comumente escolhidas. Aquelas que se afastam do padrão estético, como negras, gordas e mais velhas, ficam para trás na prateleira. Fato é que nós, homens e mulheres, estamos dispostos em vitrines virtuais e, segundo Bauman, somos ao mesmo tempo promotores das mercadorias e as próprias mercadorias. A vida contemporânea tem passado obrigatoriamente pela experiência do marketing. É preciso vender-se.


Antes dos aplicativos de relacionamento e ampla utilização das redes sociais, se relacionar era uma experiência mais orgânica: envolvia atribuir a alguém um afeto especial, criar expectativas sem tanto medo de ser “emocionado” ou rapidamente descartado, ir para o encontro com frio na barriga, conhecer alguém no ciclo de amigos ou se aproximar em uma festa após troca de olhares. Hoje essa dinâmica é rara e mesmo quem não faz uso dos aplicativos de paquera, é afetado pela lógica de mercado criada por eles. Na profusão de possibilidades de escolha, as pessoas escolhem não se relacionar em profundidade com ninguém. Talvez por isso, as pesquisas nos mostrem cada vez mais conectados e mais solitários.


 
 
 

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