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O Brasil está na moda? Entre a reverência à cultura e modo de viver brasileiros e a colonização digital do sul global

  • goitacainforma
  • 23 de jun.
  • 3 min de leitura

As redes sociais nos mostraram nos últimos anos que o Brasil parece estar na moda. Influenciadores digitais estrangeiros produzem conteúdo mirando o público brasileiro, as viagens para o Brasil aumentaram em 9,2% em relação ao ano passado, famosos do mundo da música têm aparecido trajando as cores da bandeira e mergulhando em nossa cultura, a exemplo de Bruno Mars e Dua Lipa em suas últimas vindas ao país. Além disso, grandes marcas de moda têm apresentado desfiles embalados por funk “proibidão”, como aconteceu no desfile da grife Jacquemus na semana de moda de Paris de 2025.

Jacqumus produziu um convite online via tiktok em que o influenciador Ryniel Pineda dançava o hit “Bonde das Oncinhas”. A “collab” atingiu 11 milhões de views. Na onda “brazilcore”, o jornalista estadunidense William Jeffrey soma 542 mil seguidores no @diachodegringo em que aborda a cultura brasileira pela ótica de um estrangeiro. O também norte americano Joshua Canup produz humor a partir das diferenças culturais, para seus 1,9 milhões de seguidores no @gringocomedia. Diante disso, é possível questionar o que atrai tantos olhares e desperta tanto interesse de investimento no público brasileiro. Evidencia-se que não se trata de uma simples exortação da rica cultura e encantamento por modos de vida do Brasil, mas há outros interesses mobilizando estes estrangeiros. 


Na obra Colonialismo de dados (2021), Silveira, Souza e Cassino identificam uma nova fase do capitalismo em que o ativo mais precioso são os dados dos usuários da internet. Remontando o período colonial em que minérios e força de trabalho eram extraídos do sul global, atualmente, a população desta parte do globo é a que compõe os principais usuários de redes sociais. Um estudo da Comscore de 2023 mostrou que o Brasil é o terceiro país que mais consome redes sociais em todo o mundo. Recentemente, as indicações de Wagner Moura e Fernanda Torres ao Oscar mostraram a massiva participação dos brasileiros no instagram: a postagem de indicação de Wagner Moura postada no endereço oficial da premiação @theacademy em 4 de março de 2026 conta com mais de 33 mil comentários, contrastando com a postagem de indicação do vitorioso Michael B. Jordan postada no mesmo dia, que conta com apenas 813 comentários.


Por outro lado, há quem alegue uma atração e deslumbre genuínos pelo Brasil e os modos de viver de nossa gente. No endereço digital @southamerica, em postagem no dia 14 de maio deste ano, @wademesmo escreveu sobre o que torna a cultura brasileira tão especial. Se trata de como as pessoas se tratam, celebram, improvisam e são emocionalmente abertas. Somos um país em que realidades contraditórias coexistem e existe beleza extraordinária apesar de haver perigo e exaustão também. Essa realidade pode ser vista na obra de @afotogracria, fotógrafa e artista visual da favela da Rocinha que produziu a primeira campanha oficial da Nike na favela, contando com moradores da mesma.


Diante de tudo o que foi exposto, nota-se que há uma estratégia de engajamento e potencial de viralização nas redes, quando pessoas e entidades estrangeiras exploram a iconografia brasileira. No entanto, nota-se também um certo orgulho nacional entre a juventude conectada brasileira. Em discurso recente, Fernanda Torres diz que o Brasil tem, simultâneamente, um complexo de vira-lata e pena de o mundo não conhecer nossa rica cultura e que quando alguém fura a bolha e leva pra fora o que produzimos no Brasil, isso evoca um sentimento de orgulho. Em outras palavras, os brasileiros consomem o conteúdo produzido pelos “gringos” sobre o nosso país porque amam a própria cultura e deleitam-se em ver outras pessoas sentindo o mesmo.


 
 
 

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