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O Horário de Deus e de Fátima

  • goitacainforma
  • 23 de jun.
  • 3 min de leitura

“Pra gostar, comer é o começar”, dizia sempre Dona Fátima, devota de Nossa Senhora de Fátima, minha avó. E de sua pequena cozinha, saía todo tipo de refeição para nutrir a família com “sustança” e fazer lamber os dedos com d

eleite. Éramos crianças, eu e minhas primas, e comíamos bucho no feijão, dobradinha, mocotó, chorizo, todo tipo de pirão feito com o delicioso caldo que minava das carnes bem temperadas e cozidas sem pressa. 

Sábado era dia de caranguejo! Nascidos e criados em uma cidade litorânea de interior, esse crustáceo era comum à nossa mesa. Aos dois anos já aprendíamos a chupar puãs. Minha avó conheceu a escassez e seu modo de amar era ofertando fartura. Toda semana, o leiteiro ia à sua casa levar leites frescos extraídos das vacas da roça. Ela juntava natas e fazia deliciosos biscoitinhos para os nossos cafés.

Os cafés da tarde eram rituais sagrados! Certa vez, eu, já moça, saí do trabalho e fui juntar-me a ela para a refeição. E quando lá estávamos sentadas, tomando café, olhou longamente para o relógio_ tão familiar objeto redondo e ornado de Papais Noéis_ e disse-me que nunca o mudava para o horário de verão, porque preferia seguir o horário de Deus. Nesse instante, divaguei e me diverti a imaginar Deus, soberano, atrasando-se para a convenção dos arcanjos; adiantando seu relógio em cinco minutos pra não perder o coro dos querubins; conferindo os ponteiros para atentar-se ao momento da oração das Carmelitas. Não! Nada disso era possível! A verdade é que horários, dias, meses, anos (e seus festejos de virada), pontos cardeais e divisões continentais "são tudo" invenções humanas pra sistematizar, organizar, hierarquizar esse amontoado de terra sobre outro tantão de água que é o mundo. Nós? Poeira estelar, segundo reza a ciência; sopro de vida, pela regência divina. Na sua simplicidade, minha avó sabia disso.


Sabendo disso, ela vivia com calma. A mesma calma com que seu filtro azul de barro, ornado de flores fazia apurar a água, deixando um residual gostinho de terra. A calma com que rezava o terço todas as tardes, pondo a água pra benzer sobre a televisão. A calma com que cultivava suas ervas que, em forma de chá, eram remédio para todo tipo de adoecimento. Chá de louro era para expulsar os gases após um alimento mal digerido, se a barriga doesse muito, maceravam-se as folhas de boldo, remédio amargo. Os chás de erva-cidreira e capim-limão eram para acalmar os nervos. Prática que também servia para acalmar era sentar à frente da casa, na calçada, para “pegar vento” e “olhar o movimento”.


Por vezes, ela levava longas varas de cana-de-açúcar que transformava em pedacinhos e ali chupávamos o açúcar fresco da planta.

Minha avó zelava por valores patriarcais, mas nossa vida, enquanto ela viveu, foi um matriarcado, fato controverso. Ela ditava o tom da vida de todos! Que roupa seria vestida onde, até que horas as crianças poderiam brincar na praça, quanto meu pai investiria no comércio e proibia-nos de viajar longas distâncias, pois temia os perigos das estradas. Ela ordenava, e todos obedeciam. Nenhuma voz de comando era dada por homem algum. Desde sua viuvez precoce, aos trinta e poucos anos, optou por viver sozinha com os filhos. Seu discurso, patriarcal. Sua trajetória, um exemplo de autonomia feminina.

Por longos anos, ela foi a costureira da alta sociedade de nossa cidade. De sua máquina saíam belos vestidos, dos mais variados cortes lançados pelas modistas. Ao pé da máquina, os filhos iam crescendo bem nutridos. Meu pai, ainda menino, aprendeu a fazer “coisas de menina”. Enquanto a mãe costurava, brincava de coser roupas para as bonecas com a irmã e cozer frangos e carnes. Nada disto impediu que crescesse, se casasse e fosse um homem provedor de sua família.


Sobre como ou quando ela começou a costurar para sustentar os filhos, não sei. Não sei se foi um daqueles ofícios ensinados de mãe para filha, se lhe ajudou uma prima ou vizinha ou se, em um ímpeto de coragem, por conta própria, Dona Fátima se fez nas agulhas e linhas. Como a própria dizia “Pra gostar, comer é o começar”.


 
 
 

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