top of page

QUANDO A INFLUÊNCIA VALE MAIS QUE A APURAÇÃO

  • goitacainforma
  • 25 de jun.
  • 3 min de leitura

O que antes era conquistado por trajetória profissional agora parece depender da capacidade de gerar cliques, engajamento e alcance

Produzido por Márcio Victor de Souza Cabral


A revolta de Juca Kfouri contra a escolha de Virginia Fonseca para participar da

cobertura da Copa do Mundo pela Globo não é apenas uma crítica a uma

contratação específica. Na verdade, ela simboliza um conflito muito maior: a

disputa entre o jornalismo tradicional e a lógica da influência digital. Ao classificar

a decisão como uma “esculhambação”, Juca expressou o incômodo de uma

geração que construiu sua carreira baseada em critérios como formação,

experiência, apuração e credibilidade. Para muitos jornalistas, ver uma

influenciadora ocupar espaço em um dos maiores eventos esportivos do planeta

representa uma espécie de inversão de valores. O que antes era conquistado por

trajetória profissional agora parece depender da capacidade de gerar cliques,

engajamento e alcance.

Curiosamente, essa mesma discussão aparece em O Diabo Veste Prada 2.

Diferentemente do primeiro filme, que utilizava a moda como centro da narrativa, a

continuação transforma o jornalismo em seu principal tema. A redação retratada já

não é aquela dos grandes escritórios, das equipes numerosas e da busca obstinada

pela melhor reportagem. O que importa agora são métricas, compartilhamentos,

reputação digital e monetização. Como destacou uma análise da Faculdade

Cásper Líbero, o jornalista contemporâneo deixou de ser apenas o profissional que

apura fatos para se tornar também gestor de audiência, imagem e produto. É

exatamente nesse ponto que a polêmica envolvendo Virginia se encontra com a

mensagem do filme. A Globo não contratou apenas uma personalidade da internet;

contratou uma audiência pronta. Em um cenário em que a atenção virou moeda,

empresas de comunicação passaram a enxergar influenciadores como ativos

estratégicos. O conhecimento técnico continua importante, mas já não é suficiente

para garantir espaço. Hoje, visibilidade também é poder.

O problema surge quando a busca por alcance passa a competir diretamente com

a qualidade da informação. Em O Diabo Veste Prada 2, a crise das redações é

apresentada como consequência da pressão constante por resultados digitais, da

dependência de anunciantes e da necessidade de transformar tudo em conteúdo

viral. A mesma lógica aparece no jornalismo esportivo atual. A cobertura de um

evento como a Copa do Mundo deixa de ser apenas uma missão informativa e

passa a ser também um produto de entretenimento. Talvez seja por isso que a

reação de Juca tenha repercutido tanto. Sua crítica não parece direcionada apenas

a Virginia Fonseca, mas ao modelo de comunicação que ela representa. Um

modelo em que seguidores podem ter mais peso que anos de experiência

profissional; em que o algoritmo influencia decisões editoriais; e em que a

popularidade frequentemente vale mais do que a especialização.


Mas seria injusto tratar essa mudança apenas como uma decadência do

jornalismo. O próprio filme sugere algo mais complexo. As redes sociais

democratizaram a produção de conteúdo, aproximaram comunicadores do público

e criaram novas formas de narrar acontecimentos. O desafio não está na existência

dos influenciadores, mas na substituição completa dos critérios jornalísticos pela

lógica do mercado digital. O mais interessante é perceber que tanto a discussão

levantada por Juca Kfouri quanto a narrativa de O Diabo Veste Prada 2 revelam a

mesma inquietação: quem controla a informação hoje? Os jornalistas? Os

veículos? Os anunciantes? Ou os algoritmos?

A resposta talvez esteja justamente no equilíbrio. O jornalismo não pode ignorar as

transformações tecnológicas nem o comportamento das novas audiências. Porém,

também não pode abrir mão daquilo que o diferencia de qualquer postagem viral: a

responsabilidade de informar com profundidade, contexto e credibilidade. No fim,

a presença de Virginia na Copa e a crise retratada em O Diabo Veste Prada 2 são

sintomas da mesma época. Uma era em que aparecer muitas vezes vale mais do

que saber, e em que o jornalismo luta diariamente para provar que relevância não

deve ser medida apenas em curtidas. Talvez o grande desafio da profissão, daqui

para frente, seja justamente lembrar ao público que audiência gera números, mas

credibilidade gera confiança.

Comentários


bottom of page