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Tocando coisas de amor

  • Camilla Silva
  • 10 de out. de 2016
  • 3 min de leitura

No interior do estado do Rio de Janeiro, uma banda fundada por operários no século XIX segue se mantendo firme na defesa da cultura local. O Centro Musical e Cultural União dos Operários, que nasceu e mantém a característica de ser popular, comemorou 124 anos nesse domingo (9) com apresentações em São João da Barra. “A banda Musical União dos Operários, com atividades ininterruptas até os dias de hoje, nasceu do sadio idealismo de simples operários, sem qualquer outra conotação a não ser o amor à arte musical”, se orgulha em publicação em seu site oficial.

O músico Alessandro Araújo faz parte do grupo há 26 anos. Ele conta que está na banda por uma tradição de família. “Quando eu era mais novo, fugia de casa para ver a banca tocar as alvoradas. Um dia pedi a meu tio, Gilson Araújo, que tocava para comprar um caderno de música para mim. Com 13 anos entrei e nunca mais saí”.

Em abril de 2008, a União dos Operários ganhou o título de Patrimônio Cultural do Estado do Rio de Janeiro, fornecido pelo governo do Estado. Em 2010 com o “Projeto Resgate da Memória Musical de São João da Barra” do Ponto de Cultura do Governo do Estado, resgatou um antigo repertório de 40 composições de músicos sanjoanenses. Deste projeto resultou a gravação de dois CDs.

A história da banda se confunde com a história da cidade. Os funcionários da estação ferroviária, do estaleiro e da atividade pesqueira queriam, em 1892, fazer frente à Lira de Ferro, que era considerada uma banda musical da elite. Montaram a União dos Operários, que jamais fechou as portas.

Cancelamento do convênio

O ano de 2016 foi difícil para a instituição. O decreto de emergencial municipal publicado de 20 de maio que cortou verbas da educação e cultura também resultou na suspensão de um convênio que a banda mantinha com a prefeitura de São João da Barra desde 1993 que permitia que fosse mantida uma escola de música gratuita para 150 crianças, adolescentes e adultos.

Joel de Sá, maestro da banda desde 1992, conta que foram anos de muitas conquistas, mas que a situação atual é de preocupação.

— Nós conseguimos concluir muitos projetos. Hoje, nós temos uma sede bem estruturada, instrumentos novos, temos nossa área burocrática organizada e, por isso, pudemos fechar parcerias com o Estado, Ministério da Educação e iniciativa privada. Mas nosso principal parceiro sempre foi o município. Perder o convênio tem dificultado muito as nossas atividades. A escola da banda teve que parar e isso é ruim, porque não estamos formando músicos para manter viva essa tradição. De toda forma, esse tempo que estive a frente da banda sempre foi muito gratificante. Temos muito orgulho do trabalho que realizamos — comentou o maestro.

À época, o historiador Fernando Lobato registrou sua reprovação sobre o assunto: “O convênio está em vigor todos esses anos e interrompê-lo não irá resolver o déficit público, mas irá arrasar a Centenária Entidade Musical”.

Os músicos da banda mantêm os ensaios aos sábados e as tocatas mais importantes, sem qualquer contrapartida. Este ano, os músicos tocaram nas duas principais procissões da cidade: a de Nossa Senhora da Penha, em Atafona, e do padroeiro da cidade, São João Batista, da sede, apesar da situação.

— Nós temos um compromisso com a cidade e a música. Precisamos manter viva a tradição. Tivemos altos e baixos, mas conseguimos manter as atividades — explicou Alessandro.

 
 
 

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