As provas do amor
- goitacainforma
- 11 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Por: Ana Carolina Silva, Caroline Pinheiro e Giovanna Rocha

No início de 2023, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou um crescimento no registro em cartório de casamentos em 2021, com aproximadamente 900 mil uniões em todo o território nacional. Desse dado, 10% eram de uniões homoafetivas, sendo 9.202 casamentos, 3,6 mil entre homens e 5.602 entre mulheres. Tal valor é de 43% a mais do que nos números de casamentos entre pessoas LGBTQIA+ em 2020, que teve registro de 6.433 uniões. Porém, mesmo com números significativos, existe uma queda muito grande no registro de casais homoafetivos desde a pandemia. Entre o período de 2015 e 2019, a média anual era de 1.076 milhões de casamentos.
Após 12 anos do reconhecimento da união estável como entidade familiar e do casamento entre casais homoafetivos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o assunto voltou a ser pauta na Câmara dos Deputados, em que a Comissão de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família debateu sobre um projeto de lei com o intuito de proibir a união civil homoafetiva, elaborado pelo deputado Pastor Eurico do Partido Liberal. Mesmo os direitos de união sendo constitucionais e garantidos por lei, a comissão da família aprovou o projeto que veta o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas o texto ainda precisará ser examinado pelas comissões de Direitos Humanos (CDH) e de Constituição e Justiça (CCJ) antes de ir ao plenário da Casa.
Essa tentativa de proibição é um exemplo da presente discriminação para com pessoas LGBTQIA+, refletindo uma ainda grande porcentagem da população brasileira. E esse preconceito não atinge apenas as pessoas que desejam se casar, mas, também, as famílias pré-estabelecidas, como é o caso de Sara e Maria.
Era uma típica terça-feira à tarde, em meados de 2002. Sara estava cantarolando a caminho do encontro de bruxas, que costumava frequentar no Horto de Campos dos Goytacazes, quando se deparou com uma linda jovem chamada Maria e decidiu se apresentar. As duas estabeleceram uma amizade instantaneamente e, em pouco tempo, começaram a compartilhar o mesmo círculo de amigos, indo a bares, karaokês e noites de jogos.
— Na época, eu tinha 19 anos e Maria 16. Por algum tempo, a nossa relação era apenas amizade. Eu tinha um carinho muito grande por ela, nós partilhávamos experiências e momentos agradáveis, que foram se intensificando com o passar do tempo.
Anos se passaram, Sara se relacionou com outras pessoas, se casou e teve um filho, fruto de um casamento que logo se desmanchou. No processo de aceitação do término, Sara viu em Maria um apoio indispensável para enfrentar esse momento tão árduo de sua vida. As duas se aproximaram, mas sempre com um afeto diferente, muito mais intenso que uma simples amizade.
Aos poucos, ambas perceberam que desenvolveram sentimentos além, trocando flertes em forma de brincadeira, porém com um quê de verdade.
— Um dia, juntei coragem e a chamei para um encontro. Aquela noite foi mágica, o jeito que a luz refletia em sua pele e olhos, as ondas do seu cabelo e seu sorriso me hipnotizaram. Foi então que me apaixonei e percebi que queria passar o resto da minha vida com ela.
A adaptação foi complicada, principalmente em relação ao filho de Sara, que inicialmente ficou em desacordo com o relacionamento, e à família da Maria, que não aceita, até hoje, a relação apesar dos muitos anos passados. Superando as dificuldades, elas persistiram, continuando juntas durante o processo de adoção de suas filhas, que foi concluído durante a pandemia, gerando, ainda, o obstáculo do alojamento para todos em um apartamento de apenas dois quartos.
Acabaram precisando se mudar para outra cidade durante o isolamento, mas, recentemente, conseguiram se estabelecer em uma casa capaz de comportar toda a família, agora constituída por mais uma filha.
— Nós não esperávamos que o processo adotivo fosse tão rápido para a nossa mais nova, mas, apesar das dificuldades iniciais, não poderíamos estar mais felizes por tê-la com a gente.
Ainda hoje, a família sofre com a discriminação e o medo do preconceito, mas, a cada dia, elas possuem mais liberdade e paz para serem quem são sem receios, principalmente em relação à família e ao emprego de Maria, que continuam, infelizmente, sendo motivadores de apreensão por parte dela.
— As crianças têm ajudado bastante a Maria a deixar o medo de lado, tanto no trabalho dela quanto nas escolas. Todo dia é um detalhe, uma informação e cada vez mais pessoas sabem e nos aceitam. Espero que, em breve, a gente consiga não ter esse receio e possa viver em paz.




Comentários